Como pôde Anabel?

Como pôde Anabel? Era o que todos se perguntavam. Como pôde Anabel, aquela menina meiga de olhos bondosos e reluzentes? A garota simples e de bom coração? Aquela vizinha que desde que chegara distribuía seu “bom dia” sorridente todas as manhãs? A amiga que se podia contar qualquer segredo, a doce namorada… Como pôde, Anabel?

Como pôde, então, Anabel ter esfaqueado 5 de seus colegas de classe durante o intervalo de uma aula? Dentre eles, o namorado e suas duas melhores amigas? Como Anabel pôde ter sido tão fria, matando as garotas no banheiro e depois espalhando o sangue por todos os azulejos brancos, rindo quando pegou uma delas pelo cabelo e atirou a cabeça contra a pia? Fora a outra garota, a que ela jogou a testa contra o vidro do espelho e depois esfaqueou 3 vezes nas costas. Coisa brutal.

E também teve o namorado que, ao ver a confusão, correu até ela e percebeu que ela era a assassina tarde demais. Ela sorriu e o apunhalou no peito. Não uma, mas 4 vezes, e os olhos dele ao morrer refletiram apenas surpresa. Como pôde sua doce Anabel apunhalá-lo daquela maneira?

Ninguém sabia dizer. Ninguém sabia explicar. Ninguém explica também a maneira como ela saiu do colégio rindo, com todos assustados demais para tomar alguma atitude a não ser esperar a polícia, que como sempre tardou a chegar. Tardou inclusive ao chegar à casa dela, mesmo depois de todos dizerem que ela precisava ser parada imediatamente.

A Anabel perdeu a cabeça, alertaram. Mas ela seguiu confiante até sua casa, sem impedimento algum. Em sua roupa de uniforme, o sangue vermelho vivo estava espirrado por toda a parte; a faca segura em sua mão direita. Todos se horrorizaram. Os vizinhos se esconderam em suas casas com medo, pois aquele brilho no olhar… Como pôde Anabel?

Como ela pôde chegar em casa e, ao encontrar a mãe fazendo almoço, levá-la ao chão, dando-lhe chutes intermináveis no rosto, na barriga e nos braços? E depois de vê-la sangrar por todos os poros, ainda usar a faca ensanguentada mais 6 vezes? Um horror! Anabel, ela era sua própria mãe!

Como você pôde, Anabel?

Possessão demoníaca, uns diziam. Lavagem cerebral, outros afirmavam. Só pode ser surto psicótico. Com toda a certeza, eles concordavam na mesma coisa: ela não estava normal. O que há de errado com Anabel que, quando a polícia chegou, se entregou sorrindo com os dentes e a cara toda suja de vermelho? Que, ainda agora, em sua cela sozinha, dá gargalhadas escandalosas sem remorso ou sentimento algum? Mas, minha nossa, Anabel, você amava essas pessoas! Meu Deus!

Ninguém sabia explicar e os cochichos eram intermináveis. Ela pirou, perdeu a cabeça. Aconteceu alguma coisa. Mas todos só descobriram 2 dias depois, quando o delegado finalmente fecha a pasta do caso em sua mesa. E pensar que, poucos dias antes, ele se gabara naquela mesma sala por acreditar ter visto de tudo. Mas não, aquilo não. Nunca ouve caso igual. Ele suspirou e balançou a cabeça quando obteve a confirmação que esperava. Então era tudo verdade… As evidências eram claras e os burburinhos altos, mas ele se recusou a acreditar até o último momento.

Quando a polícia chegou ao local do crime, Anabel já ia descendo os degraus de sua casa. Ela jogou a faca no chão, sempre rindo, e se entregou sem alarde algum. Em seguida, entraram na casa. O corpo da mãe desfigurado no chão da cozinha. O fogão ainda ligado, exalando cheiro de frango cozido. Tão boa que era a mulher, todos pensavam. Pobrezinha, quase não dava para reconhecê-la. Mas os policiais também examinaram o resto da casa. Quartos, sala, banheiros, corredor.

“Chefe, tem algo aqui” um dos policiais exclama ao ver uma poça de sangue no corredor do 2º andar. Não há corpo por perto, mas eles olham para cima. Um quadrado na madeira indica que há um sótom. Eles encontram uma escada numa porta à esquerda e a encaixam no quadrado do teto.

Como pôde, Anabel? Todos se perguntavam…

Até os policiais descobrirem antes de qualquer um que Anabel não pôde nada. Não. Anabel não fez nada daquilo, pois ela está aqui morta em seu sótom, esfaqueada no peito, dentro de sua própria casa. Foi só com o DNA que o delegado confirmou: nunca foi, afinal, a Anabel. Não, foi seu segredo. Segredo que ela e a mãe guardaram a sete chaves naquele cômodo sujo desde que chegaram ali na cidade e desde muito tempo atrás.

Desde que Anabel e a irmã gêmea idêntica, Amália, estavam na barriga da mãe. Ah sim, a mãe sempre soube. Ela sentia que uma de suas filhas viria estragada, ela sabia que uma de suas filhas era a encarnação do mal. Mas sempre protegeu a outra, jurando que nada de ruim a aconteceria. Pobre, Anabel. A mãe estava errada, afinal de contas.

Mas ela fez o que pôde pois, ao primeiro sinal de uma das filhas que comprovara seus instintos, ela não teve dúvidas do que precisava fazer: e trancou-a no sótom, trancou a Amália. Na cidade que moravam antes e na cidade atual, ninguém nunca a tinha visto, mas elas tiveram de se mudar de sua cidade natal, pois lá sabiam da outra menina. E esse povo fala.

“O demônio deve ficar trancado” era o que a mãe sempre repetia. E assim, a filha ficou sendo alimentada através do buraco do teto. Dezesseis anos seguidos trancada para que não cometesse nenhuma loucura. Afinal, ela é o demônio, e a mãe sempre soube. Anabel deveria ter tomado mais cuidado ao ser persuadida pela irmã para entrar no cômodo. Mas ela não tomou. Não. Ela não acreditava que a irmã era mesmo uma assassina.

Mas então, como você pôde, Anabel, deixar sua mãe trancá-la feito bicho durante tanto tempo?

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