Estrutura de 3 atos: aprenda os conceitos e aplique-os hoje mesmo

Início, meio e fim: esse é o princípio básico da narrativa, que ajuda a visualizar um caminho a ser percorrido, e apontar uma direção. Toda história pode ser, de certa maneira, sintetizada na estrutura de 3 atos.

Os primeiros estudos sobre narrativa começaram com a Poética de Aristóteles, escrito por volta de 335 a.C. 

Vladimir Propp retomou o problema ao analisar os contos de fadas russos, lançando os alicerces da narratologia atual. Propp descreveu os contos segundo suas partes constitutivas.

Segundo o artigo da Psicologia: reflexão e crítica: 

“Propp descobriu que muitas vezes os contos emprestam as mesmas ações a personagens diferentes. Muitas são as situações, quando comparamos contos diferentes, que se resumem numa mesma ação na qual o que muda são os nomes e os atributos das personagens, mas não suas funções.”

Robert McKee, em seu livro “Story”, diz que a estrutura é a seleção de eventos da vida dos personagens composta numa sequência estratégica para estimular emoções específicas.

Neste artigo, você vai aprender tudo sobre a estrutura de 3 atos, uma das estruturas mais utilizadas do mundo, e como aplicá-la na prática.

Vem comigo?

O conceito de estrutura de 3 atos

Aristóteles se propôs a analisar as peças apresentadas nos anfiteatros gregos e reuniu os elementos que se repetiam em seu livro “Poética”. 

Ele divide uma obra em prólogo, episódio e êxodo ou, como melhor conhecemos, início, meio e fim.

Com o estudo somado à adaptação de diversos autores, hoje podemos definir a estrutura de 3 atos como sendo divida em Ato I (apresentação), Ato II (desenvolvimento), Ato III (resolução).

Essa é uma estrutura simples, ideal para quem está começando; mas não se engane, pois quando bem usada é extremamente poderosa. 

Por meio dela, você pode organizar suas ideias e pensar em pontos cruciais para que a história funcione. 

E embora muitos torçam o nariz quando o assunto é estrutura, ela é importante para criar uma sequência lógica dos fatos, para que as pessoas possam vivenciar melhor as narrativas que criamos.

Sobre a estrutura de 3 atos

De acordo com McKee, um Ato é uma sequência de cenas que culmina em um ponto – maior do que todas as outras cenas -, gerando grande reviravolta.

Alguns teóricos do roteiro defendem, inclusive, que os 3 atos devem ser divididos sob a seguinte proporção, alegando que ela permite uma melhor vivência dos acontecimentos:

  • Ato I: 25%
  • Ato II: 50%
  • Ato III: 25%

Além disso, você precisa cuidar para que os 3 funcionem de maneira independente, ou seja, cada um deve conter seu início, meio e fim.

O que vai marcar o encerramento de cada ato são os Pontos de Enredo, definidos pelas escolhas mais importantes do protagonista, os quais irão gerar novas escolhas e consequências.

Dê uma olhada na figura abaixo:

ATO I

É o ato introdutório que serve para a apresentação dos personagens, geralmente em seu Mundo Comum: cenário, dia a dia, vivências. É o ponto para definir o tom da sua narrativa. 

Se não quiser começar pelo Mundo Comum, você também pode utilizar um Gancho, ou seja, alguma coisa impactante que aconteça no começo da história.

Além disso, seu protagonista pode começar com um desejo, ou uma crença errônea sobre algo, até que tudo o que ele conhece é abalado por um Incidente Incitante.

Esse incidente colocará a história em movimento, obrigando o protagonista a tomar uma atitude, embarcar em uma aventura, entre outras possibilidades.

Quanto ao incidente, as opções são infinitas, indo desde uma simples ligação até um sequestro ou grave acidente.

Mas para não confundir, gancho é o anzol que irá fisgar o leitor na obra, e incidente é o que vai chamar o protagonista à ação.

Exemplo: Uma Mulher no Escuro – Raphael Montes

Gancho: prólogo com a cena da morte da família de Victoria.

Incidente Incitante: o momento em que Victoria, anos depois, encontra uma pichação do suposto assassino em seu quarto.

A apresentação de seu antagonista também é interessante, lembrando que pode ser uma pessoa, ou qualquer força contrária aos objetivos do personagem principal. Nesse ponto, a construção dos personagens é fundamental.

Aprenda mais sobre o assunto no vídeo abaixo:

Ainda, aqui pode-se comprovar a importância da proporção dos atos, pois se esse for muito longo, a audiência perderá o interesse por falta de conflito e envolvimento.

O ato I termina no primeiro ponto de transição, em que o protagonista deixa de vez seu Mundo Comum para embarcar na aventura de forma voluntária, ou não.

ATO II

É o maior e mais trabalhoso dos atos por corresponder à metade da história. De modo geral, pode ser resumido como conflitos progressivos.

O desafio aqui é manter o interesse do leitor e preparar o terreno para o conflito final, ou Clímax. 

Nessa parte, os problemas devem ser intensificados, de modo que todos pensem que o objetivo não será atingido; as cenas precisam injetar tensão na história, precisam preocupar.

O ideal, ainda, é que cada conflito seja mais intenso e importante que o conflito anterior, de modo a se criar uma estrutura de ação crescente. 

Vale destacar que ação não significa necessariamente uma luta física. Pode ser algo mais psicológico, ligado ao interior do personagem.

Você também pode desenvolver seu ato II trabalhando com os subenredos: apresentando personagens secundários e suas tramas a fim de que o leitor recupere o fôlego.

Só não se esqueça de concluir as histórias geradas pelos subenredos também e de entregar uma ótima conexão entre elas e a trama principal, ok?

Além disso, é preciso parcimônia, pois lembre-se que os conflitos devem ser dosados com situações mais neutras, para que a leitura não fique cansativa. 

Uma abordagem interessante é pensar que, nesse ato, o protagonista irá achar que consegue solucionar o problema, mas na verdade, ele só torna as coisas piores.

O ato II se encerra no segundo ponto de transição, um ponto sem volta em que seu protagonista, já bastante transformado e com diversas lições aprendidas, faz uma nova escolha que leva ao Clímax.

ATO III

Aqui, o maior conflito será realizado e todas as questões precisam ser respondidas, o risco é maior e é tudo ou nada.

O ato III pode começar com uma preparação para o Clímax. O protagonista respirou, enfrentou seus desafios, e agora deve se preparar para a última grande batalha.

O Clímax é o confronto com o que o seu protagonista mais teme, que pode ser o antagonista em si, ou alguma questão psicológica interna que deve ser superada.

É imprescindível que o ato III deixe o leitor instigado para saber como a história irá terminar.

Em relação ao fim, existem 3 versões possíveis:

  • Final feliz: o objetivo é alcançado e o personagem é vitorioso em todos os sentidos.
  • Final infeliz: quando o objetivo não é alcançado.
  • Final agridoce: quando o objetivo é alcançado, mas o personagem perde algo de valor, algo ruim acontece, ou vice-versa.

Você ainda pode fazer um Epílogo, que pode ser usado para destacar as mudanças ocorridas após um tempo ou responder algumas questões pendentes.

E também pode fazer um Gancho Final para o caso de histórias com continuação.

Por fim, este é apenas um modelo para que sua história ganhe progressão e qualidade, e possa encantar cada vez mais leitores.

Longe de ser algo estático, você tem total liberdade para modificá-lo da maneira como achar melhor, assim como já até pode ter seguido essa estrutura de forma intuitiva.

Um bom exercício é tentar analisar as obras famosas e colocá-las na estrutura, assim, você conseguirá identificar melhor cada ponto.

Com isso, seu entendimento da estrutura será cada vez maior, e seu processo criativo será facilitado. 🙂 

Espero que tenha gostado do conteúdo e até o próximo!

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