Simplicidades

Sentou-se à mesa de sua casa. Os papéis em volta, a cabeça fervilhando. Tentava resolver os problemas: contas que não fechavam e o dinheiro que nunca sobrava. Pensava em como a vida tinha chegado àquele ponto. Ele, como um qualquer, perdido e sozinho na cidade grande. Até levava uma vida confortável, na medida do possível, mas o anonimato ainda o cercava.

Ele não tinha a glória, o reconhecimento, a adoração, coisas que por tanto tempo alimentaram os desejos de seu ego. Escrevia sim, como uma forma de contornar sua insignificância, e fingia ser algo porque disseram que era assim que funcionava (e ele acreditava demais nas pessoas).

Alguém bate à porta. Ele levanta. É Elisa.

— Oi, amor. — Ela dá um beijo em sua bochecha. — Trouxe salgadinho.

Ele dá uma sorriso murcho e a deixa entrar, trazendo consigo seu cheiro de flores e seu alto astral que sempre constrastavam com o ar pálido e melancólico que emanava dele. Elisa coloca o salgadinho sobre a mesa e senta-se no sofá, já ligando a TV.

— Vem cá, deita aqui comigo.

Era uma noite fria do meio de agosto. Ele está de calça de moletom e meia, mas o conforto só vem ao se sentar ao lado dela, que puxa um cobertor jogado ali perto e cobre ambos. Ela deita a cabeça em seu ombro e suspira enquanto passeia pelos filmes disponíveis.

— Nada de bom… — Diz com tédio.

Ele afaga seus cabelos e olha para a TV distraído.

— O que sugere?

— O que você quiser… — Ele responde. Ela levanta a cabeça de seu ombro e o olha brava.

— Odeio quando você faz isso. Dá vontade de colocar um filme da barbie e te obrigar a ver até o fim.

— Você não gosta da barbie.

— Mesmo assim… — Ela bufa e torna a se deitar, indisposta a arrumar briga. Ele dera sorte com Elisa, afinal. Inclusive, não sabia como ela o aguentava.

— Vamos ver esse. — Ela coloca “O grande Gatsby”. Ele sorri.

— Por isso deixo com você…

— Idiota.

O filme começa e os dois estão grudados no sofá. Está quente embaixo do cobertor e, pela janela de vidro é possível ver as luzes dos prédios lá fora. É só uma noite como outra qualquer, uma noite simples, nada de extraordinário. Eles comem salgadinhos e riem e se aconchegam e ele não pensa mais na glória quando está ao lado dela. Sua companhia torna as coisas simples, todo o resto vira insanidade.

O sexo também era bom, eles combinavam até nisso. Elisa dizia que nem sempre estava disposta e que às vezes só queria deitar e fazer exatamente o que estavam fazendo e, embora na maioria das vezes ela mudasse de ideia com certa insistência na medida certa, alguns dias ele também só queria usufruir de sua companhia, sem fazer a bagunça e a sujeirada que o sexo sempre faz.

Estava há 5 anos com Elisa, porém não pretendiam casar, e eram tão perfeitos juntos, que ambos sabiam que tanto o sexo como o casamento eram superestimados. Elisa era música, tocava nos bares à noite, usava boina e era toda estilosa. Assim como ele, também sonhava com a fama, com o tal do reconhecimento e ambos sentiam que isso era como correr atrás do próprio rabo, ou como tentar encher de água um balde cheio de furos.

Se conheceram num bar sujo onde poetas fracassados iam recitar suas poesias. Foi um desafio que fizeram para ele: subir lá e recitar a sua preferida. Ele, já bêbado, foi lá e fez, e ficou até surpreso porque as mãos não tremeram e nem seu rosto queimou de vergonha. No fim, todos aplaudiram e Elisa, que estava tocando naquela noite, foi falar com ele depois:

— Eu gostei do poema… Seu quê de realidade, a significação do trabalho… Essa coisa de emprestar a liberdade. Sinto exatamente isso às vezes, sabe?

Ele sorriu.

E fora o bastante para se apaixonar.

E, apesar de todos os pesares e perrengues, de uma forma doida eles eram uma bela dupla. Com os mesmos sonhos, os mesmos esforços, e os mesmos sentimentos de completude que sentiam um pelo outro. Sabiam que, num mundo tão louco, o maior presente que poderiam ter recebido estava exatamente ali, dividindo um sofá e uma coberta velha num apartamento simples e mal mobilhado.

Depois do filme, foram para a cama, transaram, depois dormiram com os corpos colados e mal haviam sido acordados pelos raios de sol que entravam pela janela sem cortina, o telefone começa a tocar e ele se levanta xingando.

— Quem é o filho da puta que liga num horário desses?

Era 9 da manhã de um domingo. Ele atende puto e resignado por ter sido tirado da cama de forma tão brusca.

— Alô? — Pergunta impaciente.

— Falo com Daniel Vieira?

— Sim.

— Aqui é da Editora 4 Ventos… Estamos interessados na publicação de seu romance “Mediano”. Podemos conversar um pouco?

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